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Modas e Modos no Brasil


Livro:

História do Corpo

     Depois de tanto tempo sem escrever no blog, volto para falar de uma publicação recente da qual participei: "História do Corpo no Brasil", da editora Unesp, organizado pelas professoras Mary Del Priore e Márcia Amantino. Trata-se de uma coletânea de artigos relativos aos mais diversos aspectos do corpo humano ao longo da história brasileira, como sexualidade, saúde, higiene, doenças, preconceito racial, alimentação e, claro, vestuário. O meu capítulo é o sétimo: Vestindo o Corpo - breve história da indumentária e da moda no Brasil, desde os primórdios da Colonização ao final do Império. Mais do que apontar o que esteve na moda neste longo período, minha intenção foi relacionar o vestuário com os acontecimentos mais importantes da nossa história. Assim, discute-se a roupa dos escravos e dos libertos, o vestuário e as classes sociais, as regras relativas às vestimentas, entre outros temas. A revista História Viva de janeiro (nº 99), traz ainda um artigo meu que foi baseado neste capítulo. Convido todos a ler!

 



Escrito por marciapinna às 15h02
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Exposição:

Grace Kelly na Faap

                Muito boa a exposição sobre a atriz e princesa Grace Kelly na Faap. Já havia comentado esta mostra neste blog quando ela estava no museu Vitoria & Albert, em Londres. Pois bem: agora temos uma série incrível de fotos, vestidos, joias e acessórios (bolsas, lenços, óculos, chapéus, luvas e sapatos) que foram usados pela belísima atriz. Há modelos de Yves Saint Laurent, Balenciaga, Chanel e Dior, obviamente. Não fica muito claro quais são originais e quais são réplicas, mas vale a pena conhecer o acervo mesmo assim. O vestido de noiva é uma atração à parte. Fica a dica.   

Faap - Museu de Arte Brasileira

Rua Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo, SP.

Telefone: (11) 3662-7198

De Terça a sexta das 10h às 20h. Sábado e domingo das 13h às 17h. Até 10/ 7. Grátis.



Escrito por marciapinna às 09h43
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Diferenças:

Pés descalços

      Em "Capítulos de História do Império", Sérgio Buarque de Holanda - em seu estilo inconfundível e detalhista - discorre sobre os conflitos e contrastes do nosso Império. Chamou-me a atenção a abordagem do autor em relação aos atritos entre portugueses (de primeira geração ou não) e brasileiros, no final do período colonial e no pós-independência. Sérgio Buarque aponta diferenças "idiossincráticas" entre os grupos, que incluem discrepâncias no modo de falar e de vestir. Tais discrepâncias alimentavam as hostilidades já arraigadas nos séculos de vida colonial.

     O autor destaca que os "naturais de São Paulo", os bandeirantes como os chamamos até hoje, costumavam andar descalços pelas matas em busca de índios e riquezas, causando estarnheza entre os portugueses que não se conformavam com aqueles pés nus e aqueles modos "selvagens". Sabemos que os bandeirantes tinham um visual bem diferente do que aprendemos na escola: nada de botas, capas, coletes ou armas de fogo. Nossos "heróis" vestiam-se mais à moda dos indígenas que dos europeus, sempre descalços, com arcos e flechas, facas, muitas vezes semi-nus.

    Sérgio Buarque faz a seguinte análise da Guerra dos Emboabas (1707-1709): este nome seria um apelido pejorativo que os paulistas teriam dado aos portugueses que tentavam roubar-lhes o ouro recém descoberto nas Minas Gerais. Emboaba, na língua geral era o nome das "aves calçudas", que representariam os forasteiros ambiciosos - e calçados - que chegaram rapidamente às terras onde se escondiam os metais tão sonhados pelos colonos. Os paulistas logo seriam expulsos das minas e perderiam o direito de explorar as riquezas descobertas originalmente por eles. O episódio mais dramático da derrota dos paulistas, liderados por Borba Gato, foi a batalha do "Capão da Traição". Logo depois, a Vila de São Paulo seria fundada e uma relativa paz passaria a reinar, depois de muitas mortes, infelizmente.

     O interessante desta análise de Holanda é que ele aborda dois temas pouco explorados neste tipo de narrativa: as diferenças culturais, como a indumentária e linguagem. Ambas ilustram os conflitos entre os reinóis (portugueses) e os brasileiros, que eram chamados de "cabras" pelo outro grupo. O livro avança sobre o tema da rivalidade entre colonos e colonizadores ao longo da história, de uma maneira bastante original. Vale a pena enfrentar o estilo narrativo do autor, nem sempre fácil ou palatável, mas sempre brilhante. 

 



Escrito por marciapinna às 20h37
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passeio

Museu do Perfume, em Perdizes

      A Faculdade Santa Marcelina e o Boticário inauguraram, em setembro, o Espaço Perfume Arte + História, no bairro de Perdizes, São Paulo. O museu é dedicado à história da perfumaria nacional e internacional e busca registrar 5 mil anos da história do perfume. A iniciativa também explora a relação dos perfumes com a moda e  apresenta várias curiosidades sobre a produção. O Espaço Perfume ocupa aproximadamente 210m² do piso térreo e mezanino de uma unidade anexa à faculdade.

     O acervo é composto por imagens, cores, sons e fragrâncias, começando em 3.000 a.C. e totalizando mais de 500 peças históricas, entre objetos originais e réplicas. No local, a gente começa a conhecer um pouco mais sobre a composição de um perfume, suas matérias-primas e ainda pode descobrir as famílias olfativas que mais nos agradam - o que é muito útil na hora de escolher uma fragrância. O acervo foi composto com a colaboração de mais de 100 marcas do segmento de perfumaria nacional e internacional. Fatos marcantes da história da humanidade são mesclados às informações sobre a perfumaria.

Fica a dica de um passeio agradável e perfeito para quem se interessa por perfumaria, moda e história - uma ótima combinação, por sinal.

DIVULGAÇÃO

Um dos espaços do museu.
Um dos espaços do museu.

 

Espaço Perfume Arte + História
Entrada gratuita
Rua Dr. Emílio Ribas, 110 – bairro Perdizes – São Paulo – SP
De terça-feira a sábado, das 10h às 18h; quinta-feira, das 12h às 18h; domingo, das 12h às18h
Mais informações: (11) 2361-7728



Escrito por marciapinna às 18h23
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Literatura

Fora de moda: com muito orgulho

      Estive lendo algumas obras sobre Euclides da Cunha, o autor de Os Sertões, e descobri algo que me chamou a atenção: o escritor fazia questão de se vestir ostensivamente "fora de moda". Antes de pensarmos que se tratava de uma tola excentricidade de Euclides, precisarmos entender um pouco do que estava ocorrendo no Brasil àquela época. Proclamada a República (1889), instalou-se um clima de euforia entre as elites brasileiras que decidiram fazer do país uma "nação moderna". As nossas cidades, principalmente o Rio de Janeiro, deveriam se equiparar às "civilizadas" cidades europeias. Para isso, foram realizadas grandes obras, cortiços foram derrubados, surgiram cafeterias e docerias refinadas.

      As pessoas também deveriam estar à altura desse novo Brasil e, portanto, começou uma verdadeira obcessão pela moda - os pobres ficavam proibidos de andar "em mangas de camisa" ou descalços pelo centro. Os mais abastados viviam um período de ostentação, e as colunas sociais ditavam as regras rígidas de comportamento e vestuário. Os dândis e as melidrosas passam a dominar o cenário - fazia-se de tudo para ser chic ou smart. O lado mais perverso dessa lógica é que a maioria da população não tinha condições de comprar roupas novas, chapéus, luvas e nem mesmo sapatos. (Hoje, a moda é mais democrática, é possível encontrar artigos inspirados nas grandes coleções internacionais em qualquer loja popular).

       Bom, voltemos a Euclides da Cunha. O escritor, que logo se tornou um republicano desiludido com o novo regime, compreendia bem a crueldade dessa política elitista. Mesmo circulando entre pessoas poderosas - ele era amigo pessoal do Barão do Rio Branco -  Euclides fazia questão de enfatizar o desprezo que sentia por essa ditadura da moda, vestindo-se sempre com antiquadas roupas dos tempos imperiais. Em meio a essa loucura consumista e ostentatória que o Brasil vivia, o autor queria marcar a sua posição, e a moda foi usada como forma de expressão.

      Sempre afirmo que o vestuário é uma maneira de comunicar nossas opiniões. Rejeitando a moda e o chiquismo da época, Euclides da Cunha demonstrou o quanto isso pode ser verdadeiro.  



Escrito por marciapinna às 12h32
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Exposição:

A moda das grandes divas do cinema

       Começa hoje, no Shopping Iguatemi, em São Paulo a exposição De Hollywood para a Moda, que vai até 30 de agosto. A mostra, promovida pelo canal TCM, traz seis dos vestidos mais famosos usados pelas mais belas atrizes das décadas de ouro do cinema hollywoodiano. O destaque da exposição é o vestido com estampa de cerejas - original - usado por Marilyn Monroe em Os Desajustados. Os demais são réplicas dos figurinos originais, como aquele que Marilyn usou na cena em que se refresca sobre a ventilação do metrô de Nova York, em O Pecado Mora ao Lado; além do vestido de Vivien Leigh, em O Vento Levou, de 1939; o inesquecível figurino de Rita Hayworth em Gilda (1946); o vestido de Audrey Hepburn, em Cinderela em Paris (1957); e outro exibido por Grace Kelly, em Ladrão de Casaca (1955).

      Quem cedeu os vestidos foi o cinéfilo e estilista americano Gene London, que tem uma coleção de mais de 60 mil peças usadas nos cinema hollywoodiano e francês. É uma ótima oportunidade para admirar o glamour do cinema e a sua influência sobre a moda. Afinal, quem nunca desejou desfilar por aí com um desses modelitos incríveis?

Rita Hayworth, em Gilda: figurino inesquecível

Imagem: "História da Beleza". ECO, Humberto (organização)



Escrito por marciapinna às 14h35
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Acessórios:

Nossas amigas inseparáveis

       Não há nada mais divertido do que comprar uma bolsa nova! Bom, talvez um sapato nos traga a mesma alegria. Superficialidades à parte, hoje os acessórios têm lugar de honra no guarda-roupa feminino. Andei pesquisando um pouco sobre a história das bolsas e descobri coisas muito interessantes. Na Idade Média, elas eram usadas para carregar os apetrechos do dia a dia, tanto pelos homens quanto pelas mulheres. As bolsas ficavam penduradas em cintos e, às vezes se confundiam com o vestido. Eram feitas de couro ou outros materiais mais luxuosos, dependendo do status social de quem as portava.

      Nos séculos XVII e XVIII, as bolsas caíram em desuso, já que homens e mulheres passaram a colocar seus pertences em grandes bolsos. No início do século XIX, elas voltaram à moda, pois os vestidos se tornaram mais leves e fluidos, o que tornava impossível a presença dos bolsos grandes. Com o século XX, as bolsas se tornaram acessório indispensável para as mulheres que começavam a conquistar a liberdade de circular livremente pelas ruas, trabalhar, andar de bicicleta, e outras pequenas vitórias.

    De todos os tamanhos, cores, materiais e preços, as bolsas se tornaram nossas amigas inseparáveis, carregando tudo que precisamos ao longo do dia, ou apenas um simples batom - e o celular, claro.

           

As bolsas através da história: os modelos variados desde a Idade Média (à direita)

  Imagens: "História Ilustrada do Vestuário". Leventon, Melissa. (org). Publifolha.



Escrito por marciapinna às 19h13
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esportes

O espartilho e a bicicleta

          Li um artigo muito interessante na Revista de História da Biblioteca Nacional (nº 57) sobre o impacto da bicicleta na vida das mulheres na virada do século XX. A bicicleta ajudou as mulheres a conseguir mais autonomia e independência, facilitando a sua locomoção pelas ruas das cidades. Os autores, Victor A. de Melo e André Schetino, destacam que isso ocorreu mais claramente na Inglaterra e nos Estados Unidos (entre as sufragistas), mas o fenômeno acabou por se espalhar pela Europa e chegou ao Brasil. Eles citam vários artigos em revistas femininas e depoimentos de feministas da época que discorrem sobre a contribuição que o uso deste meio de transporte trouxe para a emancipação feminina. Muita gente não gostava desse modismo, mas tiveram que aceitar as ousadas ciclistas.  

       O que me chamou atenção, porém, foi a influência que a bicicleta teve na moda. Já comentamos aqui que o início do século XX marcou uma mudança no vestuário feminino: as roupas se tornaram menos pesadas e a mulher ganhou mais liberdade de movimentação. Pois, a bicicleta também ajudou a libertar as mulheres das roupas apertadas e do excesso de tecido. Como pedalar com saias cheias de tecidos, rendas e amarrações? O espartilho foi escolhido como o principal inimigo das atléticas mulheres. Nos países onde o hábito feminino de pedalar se popularizou, o uso do espartilho foi abandonado mais rapidamente.  

     Os médicos da época se dividiam quanto aos benefícios das pedaladas ao sexo feminino - enquanto muitos achavam que o exercício era contrário à delicada estrutura física das mulheres, outros acreditavam que era positivo. Em uma coisa, contudo, todos os especialistas concordavam: o quanto um espartilho apertado com as terríveis barbatanas e arames podia prejudicar a saúde feminina.

   Em resumo, a bicicleta só trouxe avanços às mulheres: deu-lhes a oportunidade de se locomover com mais liberdade, mostrou-lhes a importância dos exercícios físicos e ainda simplicou-lhes o guarda-roupa, ajudando-as a abandonar de vez aqueles terríveis espartilhos. Viva a bicicleta!

   

Ilustração do semanário "O Rio Nu" (1903) e foto dos filhos do Barão de Rio Branco: a bicicleta se populariza entre as brasileiras

Imagens retiradas da Revista de História da Biblioteca Nacional nº 57

 



Escrito por marciapinna às 15h07
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Rivalidades:

A moda globalizada

        A França dominou a moda por séculos, desde que Versalhes era a corte mais chic e rica de toda Europa. O domínio francês - na verdade, em quase tudo ligado a produtos de luxo - atravessou o século XX e ainda hoje é parte do imaginário de todos nós. Atualmente, apesar de ainda associarmos luxo e moda à França (os italianos também ganharam muito terreno no século passado), as grandes grifes estão nas mãos de grandes corporações internacionais. Os estilistas também não são mais somente franceses, nem italianos. Temos pessoas das mais diversas nacionalidades à frente das marcas mais cobiçadas: temos exemplos óbvios como o americano Marc Jacobs, estilista da tradicionalíssima Louis Vuitton; ou o alemão Karl Largerfeld, na Chanel. E nós brasileiros não ficamos de fora, com Francisco Costa comandando a criação da Calvin Klein.

     Vamos voltar um pouco no tempo para entender como as coisas mudaram. A rivalidade política e econômica entre Inglaterra e França se estendeu também para a moda. Hoje, esta disputa parece ter se dissipado no tempo, mesmo porque surgiram novos atores importantes no cenário internacional (Alemanha e EUA, por exemplo). Mas, entre os séculos XV e XIX, a coisa era bastante séria, com direito a guerras sangrentas e tudo mais.

    Na moda, que era ditada pelas cortes mais poderosas, a França reinou absoluta - com algumas épocas de glória dos reinos da Itália e até da corte espanhola - até o início do século XIX. Com a Revolução Industrial, a Inglaterra passou a fornecer tecidos para vários mercados e sua influência no mundo das roupas e acessórios aumentou muito. A França se protegeu com uma estratégia inteligente: intensificou sua imagem como produtora de produtos de luxo, enquanto os ingleses vendiam tecidos de preços mais baixos e qualidade razoável.

     Para ilustrar a discórdia, vejamos como Balzac descreve as ricas senhoras inglesas, no conto do "Xale de Selim" (um texto delicioso, por sinal). É interessante notar como o escritor francês ridiculariza os britânicos, considerando-os sem o mínimo senso estético:  

"As inglesas têm uma falta de gosto particular (...), não sabem o que querem e se decidem a comprar uma coisa mais por uma circunstância fortuita que pelo seu valor. Reconheci uma dessas mulheres entediadas do marido, de seus moleques, virtuosas a contragosto, em busca de emoções, e sempre fantasiadas de carpideiras..." _ a fala é de um dos personagens, um astuto vendedor que acabara de empurrar para uma cliente um xale caríssimo e horroroso.

   A moda globalizada dos tempos de hoje rende algumas alfinetadas divertidas entre concorrentes, mas nada se compara à ironia de Balzac. O que continua é o desprezo que os franceses - na verdade, os europeus - ainda reservam aos novos ricos, sempre ávidos a gastar fortunas para comprar produtos de luxo (hoje, temos os chineses, os árabes, os japoneses e até os brasileiros que adoram ostentar).

  Para os franceses, ninguém mais possui tanto bom gosto quanto eles mesmos - talvez tenham lá sua dose de razão.

                             Balzac: um tempo em que os franceses achavam os ingleses deslumbrados com sua riqueza e sem noção de estilo 



Escrito por marciapinna às 16h55
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Tendências:

As cintilantes brasileiras

       Nas últimas temporadas, o uso de brilhos nas roupas e assessórios tem sido quase uma unanimidade. Aplicações de paetês, cristais, bordados, além de materiais e tecidos cintilantes, como lurex, cetim, vinil, parecem ter vindo para ficar - inclusive à luz do dia. Claro que é um modismo perigoso, pois fica fácil virar uma árvore de Natal ambulante ou um destaque de escola de samba. Ainda mais com a febre dos maxicolares e bijous que também apostam em muito brilho. Não tenho observado muitos exageros nas ruas: tem muita gente usando os brilhos, porém, de maneira discreta, principalmente depois que o friozinho chegou por aqui. Acho bem legal, fica feminino e delicado.

      O que é interessante destacar é o carinho que as mulheres brasileiras sempre tiveram por um brilhozinho e por jóias bem grandes (falo de uma época anterior às bijous). Nos tempos do Brasil Colônia, a mulherada adorava vestidos de cetim, veludo e seda, sempre com muitos bordados. Alguns estrangeiros que passaram por aqui naqueles tempos distantes ironizavam o excesso de enfeites e brilho que as nossas aristocratas exibiam. A inglesa Jemima Kindersley, em 1764, quando acompanhava o marido em passagem por Salvador, descreveu assim uma mulher considerada bonita e relativamente elegante por ela:

"(...) havia brincos em suas orelhas e (...) uma massa de ouro maciço, cravejada de diamantes, ornando sua cabeça; no pescoço, trazia várias correntes finas de ouro e, nos pulsos, uns braceletes de grande espessura, do mesmo material - em cada um deles havia ouro suficiente para dois".

     Os exageros e o gosto pelos brilhos (joias e tecidos) não exclusividade da classe mais abastada, apesar de ser óbvio que os ricos podiam ostentar mais. As escravas também gostavam de usar joias e tecidos coloridos; as mais pobres se esforçavam para juntar dinheiro comprar esse tipo de luxo.

    Podemos, então, aderir à moda atual sem constrangimentos, já que brilhar é uma preferência já cristalizada na nossa cultura. Vamos só tomar cuidado com o exagero, que na moda sempre traz resultados duvidosos - em qualquer século.

          

Dois momentos de muito brilho: mulher do séc. XVIII coberta de joias e bordados; e sugestões de assessórios da revista Estilo

 



Escrito por marciapinna às 13h22
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mais celebridades

Grace Kelly: um verdadeiro ícone da moda

         Já falei de Lady Gaga, com seu estilo extravagante, e agora vou homenagear uma das mulheres mais lindas e elegantes da história do cinema: Grace Kelly. A atriz e princesa de Mônaco é objeto de uma exposição no Victoria & Albert Museum, em Londres, que está causando merecido alvoroço na mídia. Os figurinos de filmes famosos, como "Janela Indiscreta" de Alfred Hitchcock, o vestido de noiva e algumas roupas da fase princesa estão encantando os felizardos que podem ver de perto tais preciosidades.

        Grace Kelly é uma das poucas mulheres que merecem o título de "ícone da moda", que algumas revistas usam sem o menor critério apenas para bajular as celebridades do momento. A princesa de Mônaco era diferente: sabia usar os clássicos com tanta elegância e altivez que deslumbrava a todos. E o mais importante é que ela possuía uma forma única de combinar as peças, as cores, as proporções. Não era apenas alguém que se vestia com grandes marcas, ela criava um visual único quando desfilava com suas roupas. Isto é ter estilo e ser elegante ao mesmo tempo. Atualmente, existe uma certa crença de que ter estilo é vestir-se com peças ousadas, diferentes - seria quase fantasiar-se. Grace Kelly provou que discrição e roupas clássicas também podem ser sinônimo de estilo. (Não é necessário dar uma de Lady Gaga para ter estilo).

Até hoje, as mulheres suspiram de inveja quando assistem a seus filmes ou veem suas imagens na TV. Fica a homenagem à bela atriz.

                          Grace Kelly: com o vestido do filme "Janela Indiscreta" e tentando passar desapercebida

(Fotos: revista Veja)



Escrito por marciapinna às 21h19
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celebridades

As loucuras fashion de Lady Gaga

          A mais nova sensação do pop, Lady Gaga, não tem uma voz incrível como da outra musa meio doidinha Amy Whinehouse, nem possui um talento fenomenal, mas inegavelmente tem estilo. O visual da lady Gaga é o máximo: extravagante, ousado, nem sempre de bom gosto, porém, cheio de referências à modas do passado. A moça já nos fez lembrar da corte de Maria Antonieta, com perucas e saias enormes, "homenageou" as supines (antigas plataformas) dos tempos de Elizabeth I, abusou (mesmo!) dos babados que fizeram sucesso no século XIX, e sempre recorre aos corseletes e corpetes que estão em alta desde o século XVI, pelo menos. Gosto também da maquiagem carregadíssima e com foco na pele branca de porcelana - em uma referência às cortes europeias do século XVIII.  

         A cantora sabe como chamar a atenção e estar sempre na mídia. E este parece ser a qualidade mais importante para fazer sucesso nos tempos atuais. Para quem gosta de moda, Lady Gaga é uma vitrine que exibe tudo que temos vontade de usar, mas o bom senso e o bom gosto não nos permitem. O que mais admiro na cantora é que ela sabe como brincar e se divertir com a moda, em contraste com a maioria das celebridades prefere as mesmices do "elegantemente correto"  e a overdose de grifes internacionais - uma ostentação chatíssima. Enfim, um pouco de ousadia!

Lady Gaga: babados e plataformas altíssimas, causaria inveja em Maria Antonieta



Escrito por marciapinna às 11h15
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Novidades:

 Detalhe do quadro "As meninas de Velasquez": olhem o formato das saias

Volumes e mais volumes

      Nas últimas coleções de moda, temos visto se consolidar a tendência de vestidos com volumes na região do quadril. Em vez de saias rodadas, que também têm seu lugar nos desfiles, surgiram vestidos em que os volumes crescem para os lados, com inspiração nos antigos panniers dos séculos XVII e XVIII, que eram usados pelas nobres das cortes mais chics da Europa. O efeito é bem interessante, para mulheres que não têm muito quadril, é claro. Os modelos não chegam perto dos exageros daqueles séculos, em que armações de madeira ou arame davam um volume inacreditável a esta área do corpo feminino. A semelhança, porém, é evidente.

     Comparemos alguns exemplos atuais e do passado:

                 

Desfiles da SP Fashion Week, em fotos da revista Elle e o retrato da Infanta Margarida, de Velasquez, do século XVII: muito em comum     



Escrito por marciapinna às 18h59
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Mais sapatos:

O salto alto na mira da Revolução

        Não tem jeito, quem gosta de moda, simplesmente adora sapatos! Já falei aqui sobre os efeitos da Revolução Francesa (1789) na moda da Europa: linhas mais simples, vestidos tipo império e inspiração na tradição greco-romana - até os cabelos se tornaram mais curtos com a onda anti-monárquica e anti-nobreza. Ainda mais interessante é o efeito das ideias revolucionárias nos calçados femininos e masculinos. A proposta era se vestir de maneira mais despojada e sem luxo (já vimos como isto durou pouco) e os saltos altos passaram a ser mal vistos pelos revolucionários. A moda na corte de Maria Antonieta era usar sapatos ricamente ornamentados com bordados e pedrarias, sempre com saltos altíssimos, tanto para mulheres quanto para homens (este usavam saltos um pouco mais discretos). Com a Revolução, os sapatos se tornaram menos enfeitados, mais sóbrios, e os saltos abaixaram muito. Algumas mulheres usavam um saltinho de poucos centímetros, só para não perder o hábito. Maria Antonieta foi decapitada usando um modelo de salto modesto e sem detalhes. Ninguém queria perder a cabeça, então, as damas e cavalheiros abriram mão dos calçados mais glamourosos. E este modismo não ficou só na França, os ingleses e italianos também aderiram.

                        

Modelos pós-Revolução Francesa: sem detalhes e com saltos modestos (In: "Shoes", de Lucy Pratt e Linda Woolley, V&A Publishing)



Escrito por marciapinna às 21h12
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Corselet:

A volta do "lindo" vilão

        Já falei aqui sobre o terrível espartilho que torturou mulheres até o início do século XX: um emaranhado de arames (no século XVIII, de barbatanas de baleia) que apertava a cintura e acentuava as curvas femininas. Mulheres não saíam de casa sem este assessório, que realmente modelava os corpos. Só que os prejuízos à saúde - e à mobilidade - eram grandes. Algumas exageravam, permitindo que os arames machucassem a pele e os músculos, atingindo até os órgãos internos. Mesmo as grávidas (!) não abriam mão dele e os médicos travaram uma batalha dura para convencer as vaidosas de antigamente. Por fim, com emancipação feminina, o espartilho foi trocado por cintas elásticas e lingeries mais confortáveis. Passamos por uma fase, nos anos 70 e 80, em que a mulherada queria mais era sair sem nada sob as roupas...Liberdade era a palavra de ordem.

       Há algumas temporadas, porém, o espartilho ganhou vida nova e surgiu das cinzas com outros nomes: corselet ou corselete, corset, corpete (este já era usado anteriormente). Caiu novamente no gosto feminino e, parece que também, no masculino. Cada vez mais modelos surgem, sempre sofisticados e sensuais. Os materiais modernos não deixam a peça tão desconfortável como antigamente. O corselet agora pode ser exibido sem pudor e deixou de ser propriamente underwear. Recentemente, porém, assisti a uma reportagem sobre garotas que formam um grupo na internet que disputa quem tem a menor cintura, sempre com a ajuda do acessório. As medidas são impressionantes e os médicos novamente vem a público para alertar sobre o maléfico efeito do corpete nos músculos que sustentam a coluna. Bom, sempre haverá quem exagere na dose.

       Hoje, porém, podemos usar a peça, que tem inegável poder de sedução, sem prejudicar nossa saúde e sem tanto sofrimento (ele ainda aperta um pouco, não tem jeito). O melhor de tudo é que podemos fazê-lo quando queremos, nas situações em que NÓS escolhermos. E quem preferir uma underwear mais básica e confortável, também pode exibir suas medidas por aí, com orgulho.

 Versão moderna do espartilho: sedução sem sofrimento (foto retirada da revista "Estilo")



Escrito por marciapinna às 18h50
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